✋ O Ditador Dentro de Ti

Pandemia não é desculpa pra autoritarismo.

"A arte da guerra é render o inimigo sem precisar batalhar" — Sun Tzu

No truco, no pôquer, e em qualquer outro jogo de estratégia, os maiores estragos não são feitos quando um jogador ostenta vantagem nítida sobre o adversário.

A jogada de máximo impacto envolve deixar o oponente achar que está por cima.

É quando ele te truca, ou aposta pesado — é quando ele te pede pra atacar — que os danos mais duradouros são infligidos.

O golpe de misericórdia mais fatal é aquele pelo qual a própria vítima acaba clamando.

🎭 A Escolha da Década

Em artigo recente para o Financial Times, Yuval Harari (Sapiens, Homo Deus) sintetizou a sinuca por que passa a sociedade.

Temos duas escolhas importantes para fazer. A primeira é entre vigilância totalitária VS. empoderamento individual. A segunda é entre o isolamento nacionalista VS. solidariedade global.

No caso desta última, penso que a decisão está tomada. Já escrevi a respeito.

A primeira é mais delicada, e ainda está em aberto.

🤔 Precisamos Falar Sobre Dunning-Kruger

“O comando nº 1 do partido é: desacredite na evidência que vem dos seus olhos e ouvidos” — George Orwell

Os mercados não estão em níveis recordes de volatilidade porque temos certeza de uma catástrofe por vir.

Volatilidade significa justo o contrário: a incerteza sobre o futuro é inédita, e não conseguimos concordar sobre o real tamanho da p* que se aproxima.

Num dia, a bolsa trava em limite de alta; no outro, em limite de baixa. Ora achamos que a quarentena vai durar 12 meses; ora nos empolgamos com uma nova cura milagrosa.

Dunning-Kruger é o nome de um viés cognitivo famoso na psicologia.

Ninguém é invulnerável a ele.

Nas últimas semanas, todos nós passamos pela montanha-russa do Dunning-Kruger (ao lado).

O pico da volatilidade nos mercados (talvez, o fundo dos preços) deve coincidir com o fundo do poço no gráfico.

Não se engane: por mais que você ache estar conhecendo a biografia do Corona de cabo a rabo, coletivamente, nós ainda mal começamos a arranhar a superfície do problema.

  • Não sabemos como tratar enfermos: cloroquina funciona? De quantos estudos clínicos a mais precisamos para garantir? Em quantos meses sai uma vacina?
  • Não sabemos se estamos tomando o curso de ação correto: você já viu alguma modelagem robusta comparando o custo-benefício de quarentenas (em diferentes durações) VS. outras estratégias de mitigação? Será que não estamos evitando as perguntas difíceis? Um lockdown de 18 meses salva mais anos-vida agora do que seu impacto econômico reduz da expectativa de vida nas próximas gerações?
  • Não sabemos nem se os dados do nosso cenário-base são reais: nossas estimativas partem todas dos dados chineses. Mas e se… o impacto do vírus foi ordens de magnitude maior na China do que Xi Jinping deu a entender? Por que as operadoras de telefonia chinesas viram "evaporar" 8 milhões de clientes" entre janeiro e março?

Num contexto assim, faz sentido desconfiar de qualquer pessoa que te garanta ter certeza de alguma coisa.

"Tenho certeza de que a bolsa vai subir daqui pra frente!" é um dizer tão perverso quanto "Tenho certeza de que já passamos dos 100.000 casos de Corona no Brasil!".

"Ninguém precisa ficar em casa, isso é só uma gripe" é uma crença tão maligna quanto "Precisamos proibir as pessoas de sair de casa por 3 meses!".

Perceba uma coisa: você está sendo compelido a tomar uma posição com impacto alto justo em uma hora de clareza baixa. Estrategicamente, não é nesse tipo de momento que fazemos nossas melhores decisões.

Perceba outra coisa: entre um extremo e outro, costuma haver um gradiente de opções. Quase nunca uma escolha é binária ("parar a economia por meses" ou "ignorar o vírus por completo").

Quando a situação se apresenta assim, é comum que a narrativa esteja sendo manipulada para te levar a se posicionar em favor de um extremo.

🗽 Patriot Act 2.0

“Nada é tão permanente quanto um programa temporário do governo” — Milton Friedman

Emergências aceleram o processo histórico.

Decisões que em tempos normais custariam anos de deliberação são aprovadas em questão de horas. Tecnologias imaturas (às vezes, perigosas) são implementadas às pressas, porque os riscos de não se fazer nada parecem maiores.

Medidas extraordinárias perduram.

Há 20 anos atrás, ninguém cogitava tirar os sapatos e ser despido por uma máquina de raio-X antes de pegar um avião. Hoje, é impensável viajar pra fora sem passar por isso.

Não aconteceu a contragosto: foi nosso medo do terrorismo que nos fez clamar por medidas tais quais.

Enquanto você lê esse texto, Hong Kong obriga recém-chegados a usar uma pulseira eletrônica que denuncia movimentos suspeitos. Em Taiwan, a polícia vai bater na sua porta se a bateria do celular acabar e ninguém souber onde você está.

Na Polônia, um app do governo requer que usuários mandem selfies em horários aleatórios, para que autoridades confirmem a aderência à quarentena.

Rússia e China estão usando tecnologia de reconhecimento facial nas ruas e em drones para punir quem sai de casa fora de hora.

Na Itália e no resto da Europa, operadoras de telefonia móvel estão entregando dados de GPS dos celulares do povo para que aglomerações e fluxos de movimento não escapem à polícia.

Na maioria destes estes lugares, o governo tem respaldo da população.

A polícia da Lombardia consegue escurraçar um teimoso de volta pra dentro de casa porque os vizinhos dele estão fazendo denúncias e torcendo, de suas sacadas, por uma multa. Tem até relato até de balde d'água sendo despejado na cabeça de passante desavisado.

Hoje, no Brasil, as pessoas pressionando por um lockdown autoritário e generalizado são as mesmas que, há 3 semanas, sequer entendiam a ameaça do vírus.

Estão no pico do Dunning-Kruger. Tomarão um tombo quando perceberem que, enquanto combatiam o vírus químico, sucumbiam ao vírus da noosfera.

No Brasil e no mundo, uma nova onda de “Leis Patrióticas” (como a que sucedeu os ataques de 2011 nos EUA) deve avançar a formalização do papel dos oligopólios da internet como extensões do governo.

Além de fontes inesgotáveis de dados, estes serão cada vez mais incumbidos de suprimir qualquer discurso minimamente subversivo.

Já está acontecendo aqui no Medium e no Facebook, com o banimento de artigos "anti-histeria" (dos mais aos menos científicos).

Os oligopólios não vão nem reclamar. Este já é seu modus operandi.

Você não vai nem reclamar. Já costuma filtrar por conta própria tudo que foge ao politicamente correto.

Ninguém vai te forçar a se mudar para a distopia. É você quem vai implorar por uma vaga nela.

A história é inequívoca: ditadores não nascem no vácuo. Eles nascem dentro de nós.

🗿 Autossuficiência

Prefiro re-enquadrar o tradeoff do Harari. Em vez de vigilância totalitária VS. empoderamento individual; enxergo uma oposição entre rendição VS autossuficiência.

Ou resgatamos um senso individual de dever cívico que há muito parece ter se perdido, ou seguiremos precisando de alguém para limpar nossas bundas.

Antes do Corona, já atravessávamos uma tendência macro em direção ao individualismo. O poder estatal vem sendo demovido e unidades políticas menores têm ganhado relevância. A resistência latente de nacionalismos periféricos ilustra a força de um localismo que vêm sobrevivendo ao teste da globalização.

Agora, mais que nunca, o distanciamento social força a autossuficiência.

Corte você seu cabelo, pinte você suas unhas, faça você o seu pão. Passe você seu café, vigie você a saúde dos seus parentes, eduque você às suas crianças.

No extremo: cultive seu próprio alimento e produza seus próprios bens.

Não seja nem dependente de regulações nem vulnerável a restrições. Tenha paciência, para não acabar se tornando paciente.

Aprenda a manipular e interpretar dados! Entenda os meios pelos quais a estatística é usada para enganá-lo!

Entre os legados mais positivos que os próximos meses podem deixar, está um aprendizado tremendo em cuidar dos nossos próprios rabos. Em prosperar autossuficientemente. Nos planos físico e mental. Crítico e emocional.

🛸 De Volta Para o Futuro?

A crise do Corona vai passar.

Mas seu legado ficará. Reformulará não só nosso sistema de saúde, mas também nossa economia, política e cultura.

Nossa vontade coletiva é quem ditará essas mudanças. Ela precisa ser bem informada.

Deve se questionar não só sobre como superar as ameaças imediatas, mas também sobre o tipo de sociedade que habitaremos quando tudo isso acabar.

Sim: quando a poeira baixar, nós vamos viver em um mundo diferente.

Pode ser que ainda seja 2020. Pode ser que acordemos da quarentena direto em 1984.

Conseguiremos superar o tradeoff do Harari? O poder da autossuficiência será capaz de afastar a possibilidade da rendição?

Uma pergunta fascinante é: em que ponto o custo de capital da automação se torna tão baixo que passa a ser viável para um grupo pequeno montar uma fazenda robótica autossuficiente num pedacinho de terra?

A espécie humana foi majoritariamente fazendeira antes de ser majoritariamente assalariada.

Sabemos que funcionava. Ainda não sabemos se "funciona" contar com que boa parte da população seja empreendedora em mercados globalizados.

A desgraça socioeconômica da qual você está começando a se dar conta não é só uma ressaca do capitalismo. É o seu cérebro numa viagem de alucinação monetária, captura regulatória, superfinanceirização e orgia entre bancos centrais.

Isto que você está assistindo na TV pode ser o colapso de um regime político-econômico dominante no ocidente desde os anos 70, e particularmente exacerbado nos anos 2010. Um regime fundamentado em falácias como a de que não há consequência adversa na manipulação da oferta de dinheiro.

Isto não é uma simulação. Repito. Isto não é uma simulação.

As decisões que vão te acometer agora — as posições que você terá de tomar — terão consequências pro resto da tua vida.

Se você soubesse que o arco da história está nos levando "de volta para o futuro"… para qual futuro você gostaria de ir?

Collecting mental models ~

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